Eu penso muito a respeito de The Leftovers. E do quanto eu preciso rever essa série.
Provavelmente, e eu entendo o choque de uma afirmação hiperbólica dessa natureza, minha série de tv favorita dos ultimos 15 anos. E sim, eu lembro de todos os novos clássicos lançados nesse meio tempo.
Projeto de um Damon Lindelof ainda curtindo a depressão pós Lost e baseado em um livro de Tom Perrota, a série vinha com certa cara de que ia ser uma nova série de mistério, ainda surfando na onda de programas do tipo surgidos tentando navegar no hype do show que lançou Lindelof e Carlton Cuse pro mundo.
Mas é aí que mora o twist e, nunca nos esqueçamos, o demonio mora nos detalhes: a série subverte as expectativas do publico já no primeiro episódio.
Na trama, 2% da população mundial, do mais absoluto nada, simplesmente desaparece. Você está em um momento falando com um ente querido, olha pro lado e quado olha de volta, só as roupas dele no lugar. O mundo perde, do nada, em torno de 140 milhões de pessoas.
E aí? Rapto alienigena? Arrebatamento cristão? Thanos estalando os dedos novamente? Qual é o lance?
Jamais (jamais?) descobrimos e esse é o tal twist que mencionei acima: a série NÃO é um show de mistério, NÃO é sobre O QUE aconteceu com essas pessoas.
Não é sobre quem partiu, mas, como o próprio nome indica, é sobre os que ficaram. Os deixados para trás (nenhma relação com a série de livros evangélicos de mesmo nome).
É sobre nós.
Em suas 3 temporadas - 28 episódios, no total - vamos para cantos muito estranhos enquanto aquelas pessoas tentam, de formas mais esotéricas ou mais "laicas", lidar com o luto da perda. Um monte de gente vai inventar teorias sobre o que de fato ocorreu, cada uma mais mirabolante e fantasiosa que a outra (mas mesmo as mais pé no chao vão, enxergando friamente, partilhar da mesma imprecisão pq, afinal, é apenas outro chute, outra tentativa de racionalizar o inexplicável).
Entre momentos mais intimistas e outros que eu só posso descrever como "Lynchnianos", a série crava seus dedos na mente do público, servindo como um espelho sombrio nos lembrando que, também, cada um de nós vai ter que lidar com perdas. Alguns mais, outros, mais sortudos, menos. Mas ninguém que viva tempo suficiente nesse planeta vai passar incólume.
Detalhe 1, que, aliás, eu não mencionei até agora de propósito: o livro é de 2011.
Detalhe 2: a série foi de 2014 até 2017.
Detalhe 3: Os Living Reminders. Eles são o mais próximo de antagonistas que a série apresenta (pelo menos a princípio) e também deixei eles de lado por motivos "estratégicos". Os LR ou Guilty Remnants são um grupo de pessoas que formam, após o evento do desaparecimento mundial, um... uma.... "religião"? "seita"? Complicado.
Pq seitas acreditam em algo e eles acreditavam em ....nada. E esse é exatamente o ponto do grupo. Sempre de branco e fumando literalmente o tempo todo, o grupo tinha como eixo ideológico a crença de que era impossível só tocar o barco e fingir que nada havia acontecido depois da tragédia global. E que eles iriam ser esse "lembrete vivo" do ocorrido, impedindo as pessoas de simplesmente, seguirem a vida.
De acordo com eles, não existe a fantasia de "um mundo normal" depois de uma catástrofe dessas proporções e qualquer tentativa de fingir uma normalidade desaba.
Eles eram, novamente, os vilões da série.
Aí olhamos pro mundo de 2025 e eu percebo que preciso rever esse show com o olhar de um homem vivendo em 2025 e em um mundo pós pandemia.
Os living remnants são pessoas que sentem que a fantasia de normalidade que nós coletivamente sustentamos simplesmente quebrou e não tem como consertar de volta.
Eu vou parar esse texto aqui e vocês concluam dele o que quiserem, mas se forem tirar dois pontos, pensem no seguinte:
1 - Assistam The Leftovers. Se gostarem, leiam o livro, é bem pequeno, vai fácil.
1 - Os Guilty Reminders estão totalmente errados? E considerando tudo o que passamos nos piores dias do COVID, dá pra falar mesmo que os GRs são eles ou de fato, nesse nosso plano de realidade aqui, NÓS somos mais parecidos com eles do que gostaríamos?
....
Eu penso muito em "The leftovers".
E em "Rubber". Também conhecido como "o filme do pneu senciente telepata assassino".
Qual a conexão entre ambos os tópicos?
Sei lá, diz você


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