Essa hq é importante pra caramba e que bom que ela já está tendo reconhecimento tanto de público quanto crítica. Ela é uma denuncia de uma realidade corrente, acontecendo agora, enquanto voce aí le essas mal traçadas linhas. Há menos que façamos algo de drástico, isso vai continuar se repetindo momentos, dias, meses depois de você terminar a leitura.
Na trama, um grupo de adolescentes da favela vão de carro pro baile antes de um deles deixar a comunidade pra ir jogar em um time de futebol de base. No caminho, decidem gravar uma live pra promover a imagem do rapaz e tals, quando são parados por um grupo de PMs e aí ... aí é inferno na terra...
A autora, Magô Pool (roteiro E arte) usa as tecnologias de nossos dias como um elemento na narrativa conferindo um clima de "agora", uma "presentidade", se é que essa palavra existe, a essa trama.
A arte dança entre o expressionismo e a crueza tipica de um zine. E essa é uma escolha acertadíssima, já que do primeiro, temos o terror em rostos e reações maiores que a vida. E afinal, essa É uma hq de terror.
Do segundo, o, novamente, me perdoem a licença poética, "cheiro de rua", aquele aspecto cru que confere autenticidade à obra. Tu sabe que a autora não tá escrevendo de longe, não tá narrando essa história do alto de uma torre de marfim, como ocorre com algumas obras de suposto caráter de "crítica social". Aquilo é a realidade de alguém que conhece aquela dor, aquele horror, aquele medo na pele.
Ao mesmo tempo, ainda sobre a trama, o twist final confere um aspecto de labirinto kafkaesko ao negócio, parecendo que todos ali estão, independente do ponto dentro da pirâmide, em um perpétuo ciclo, achando que são inimigos e adversários mas são todos peças no mesmo tabuleiro em que as mãos diferentes de um mesmo corpo controlam os dois lados. O título se justifica aí. "Segue o baile", de fato. Apenas outra segunda-feira.
Fora que consegue escapar da armadilha de acabar adotando em determinado momento algum tom professoral ou proselitista, sempre um risco com obras dessa natureza.
AO MESMO TEMPO....e vcs sabiam que ia ter uma conjunção adversativa vindo em algum momento.... eu to começando a entender galera que fala que tá cansado de obras protagonizadas por minorias que SÓ retratam sofrimento.
E sim, eu sei que a crítica, aí, não é à obra e sim, em certa medida, à cena. De artes em geral. Fui sem saber nada da hq e tinha uma esperança de ser de fato, sobre meninos indo pro baile funk, tá ligado?
"mas aí o problema é teu e da tua expectativa"
sim
"......como assim '"sim'"?"
Sim, qual parte de que o problema sou eu, lá em cima, vc não sacou kemosabe?
E veja bem: não só nada disso reflete na qualidade do gibi, como, na real, essa hq é uma resposta dialética a essa expectativa minha. Provavelmente a autora e todos os demais autores de alguma minoria adorariam poder retratar as próprias vidas em obras leves e divertidas, slices of life com pequenas aventuras adoráveis sobre o cotidiano. Mas não dá e o que tais obras fazem é nos lembrar do porquê disso.
Pq o sistema não deixa.
E nunca percamos isso de perspectiva: não é um sistema quebrado. É um sistema funcionando EXATAMENTE como foi concebido para funcionar. E dai vem o horror dessa hq. Do quão mundano eram as pessoas assistindo online aos eventos que ocorrem na trama. Ou do quanto ESSE episódio acaba soando só "mais um" e no horror de um mundo que normaliza esse tipo de barbaridade. Ou do profundo terror de saber que as expressões demoníacas nos rostos dos policiais não estão lá pra bestializa-los, pra dizer que são monstros e, portanto, maçãs podres, exceções à regra, mas para nos lembrar que eles estão numa máquina de moer gente cujo objetivo final é produzir monstros EXATAMENTE como eles. As máquinas de matar desumanizadas são, novamente, o produto final desejado de um sistema que precisa deles. Que não opera sem eles.
E sem a oposição a eles. Novamente, um campo circular onde grupos acham que estão competindo em linha reta mas seguem girando ao infinito. Ou bonecos brigando nas mãos de um mestre de marionetes que lucra com o caos.
E segue o baile, de fato.
Uma das melhores coisas que eu li esse ano, e veja bem, eu tenho tido a sorte de ler MUITA coisa legal recentemente.

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