quarta-feira, 21 de novembro de 2012

There's a starman waiting in the sky: Astronauta - Magnetar.




Magnetar:  é uma estrela de nêutrons com alto valor de campo magnético. Considera-se o magnetar um tipo especial de estrela de nêutrons (EN). As ENs são esferas compactas de cerca de 15 quilômetros de diâmetro, correspondendo ao núcleo do que resta do colapso de uma estrela com cerca de dez vezes a massa do Sol. Os magnetares, por razões que ainda não completamente esclarecidas, têm campos magnéticos mil vezes mais fortes do que as ENs normais.

"We don't want other worlds. We want mirrors."

Adoraria dizer que as informações acima vieram do meu cérebro altamente desenvolvido fruto do mesmo processo evolutivo que me deu um par de polegares opositores e tals.... mas foi via wikipédia.
Sorry pelo anticlimax, senhores. 
A definição acima foi inserida pq acho que é o máximo que eu vou precisar falar de Astronomia ao resenhar "Astronauta - Magnetar" primeira Graphic Novel do selo MSP, escrita e desenhada por Danilo Beyruth. O texto a seguir fala do personagem, óbvio, de cinema, de perspectiva e, sobretudo, de solidão. 

“Then the loud sound did seem to fade a ade
Came back like a slow voice on a wave of phase ha hase
That werent no d.j. that was hazy cosmic jive”
Starman 


Primeiramente: não, se existe alguém lendo esse texto achando que a história tem alguma relação, em termos de clima ou temática, com coisas como a Turma da Mônica Jovem, tipo um "Astronauta Teen", pode largar de frescura e ler a Graphic. As referências aqui são tipo, "A piada mortal" e "Monstro do pantano" do Alan Moore. Ou o "Homem Animal" do Grant Morrison. Ou seja: temos um criador pegando um personagem famoso do público infantil/adolescente e conferindo a ele uma roupagem mais adulta, mas, ainda assim, mantendo suas caracteristicas básicas, tornando-o reconhecível pros fãs antigos. 

Segundo: a HQ é foda. Sério, o roteiro é primoroso, o desenho é lindo, tudo funciona perfeitinho. A história, sem dar muito spoiler, mostra o personagem numa missão particularmente arriscada, onde ele vai estudar o fenômeno astronômico descrito no primeiro parágrafo desse texto e que intitula o livro. E aí, obviamente algo dá errado. A partir daí, temos o personagem, isolado no espaço, com algum alimento e água e tendo que se preocupar em conseguir restaurar sua nave de forma a conseguir voltar pra casa. E no processo, se manter são.

A hq mostra menos uma história de ficção cientifica hard e mais um conto de naufrágio e do tédio (e das consequências) resultantes do isolamento do Astronauta, sem nem um "Wilson" pra chamar de seu. Em termos de descrição da trama, acho melhor parar aqui. 

A partir daqui, minhas referências migram pra outra mídia: o cinema.

Entre as várias formas de se contar uma história narrando viagens espaciais e a consequência delas pra humanidade, vc tem as mais realistas ("Apolo 11" e "os Eleitos", por ex.), as mais otimistas ("ET", "Contatos Imediatos de terceiro grau"), as mais pessimistas (qualquer filme de invasão hostil, desde "Independence Day" até "Robot Monster" \o/) e as mais ....bem..... esquisitas ("Marte Ataca" e.....eu tenho que citar de novo "Robot Monster". Já viram? Mano, é um gorila de escafandro que mata geral. Sério, isso é de uma epicidade que....).
Eu particularmente tenho uma queda pelas que analisam o tema de um viés mais existencialista. A partir de um distanciamento literal, do astronauta com seu planeta, ele ganha a habilidade de rever a Terra com outros olhos (seja individualmente, seja com ajuda de alguma força alienígena).

E enquanto eu falo isso, imediatamente vc pensa em "2001" do Kubrick, e eu não posso culpa-lo pq, bem, referência máxima, mas peço que se atente pra outros 3 filmes: "Sunshine", do Danny Boyle, "Solaris" de Andrei Tarkovsky e "Moon", de Duncan Jones, o filho de Deus.

Cada um deles analisa a relação do homem com seus semelhantes e como nos definimos pela relação com os outros ("Solaris", principalmente, analisa isso com maior enfoque, já que, aqui, temos uma forma de existência alienígena que usa as memórias dos astronautas com quem interage para criar formas que possam efetivamente se relacionar com eles). E a Hq de Danilo Beyruth brinca com alguns dos conceitos estabelecidos nesses filmes, mas se apropria deles e os usa para contar uma história original, humana até a medula exatamente por seu cenário alien (aliás, característica básica das melhores histórias de ficção científica. O mundo futurista é uma metáfora do nosso mundo atual e, a crítica ali, é exatamente ao atual estado em que o mundo se insere. A projeção, quando utópica, é um sinal do que podemos nos tornar caso façamos as escolhas certas. Quando distópica, serve como aviso do rumo que podemos tomar em caso contrário). 

"We never talk anymore
Forever I will adore only you"
5:15 the angels have gone


"Sunshine", por exemplo, diz que se as regras mais básicas da existencia humana são afetadas e/ou anuladas num ambiente em que as condições são completamente diferentes da de nosso planeta de origem, pq o mesmo não pode acontecer com nossa esprititualidade/metafísica? Da mesma forma, o Astrounauta da Hq é confrontado com um momento lisérgico/psicodélico/existencial tal qual ocorre em quase todos os filmes acima, e como na maioria deles, ficamos na dúvida se foi uma alucinação, uma forma alienígena se manifestando usando formas físicas familiares para o protagonista, um evento metafísico tornado possível exatamente pelo cenário absolutamente único da história ou uma mistura de tudo isso. 
O legal da história é que, mesmo sendo da Maurício de Souza Produções, com um personagem extremamente conhecido e tals, o autor não tem medo de testar o protagonista até os seus limites (esse, aliás, é o primeiro baque que vc toma ao entrar em contato com a obra: a morte se faz presente aqui em vários momentos, nada é seguro e, sendo honesto, em vários momentos eu realmente achei que o personagem não fosse sobreviver. Sim, é sério nesse nível).
Ele encara o medo, um tédio absurdo e um cenário extremamente claustrofóbico, sente dúvidas diante dos riscos da sua missão, se arrepende várias vezes, sangra (literal e metaforicamente) e chega BEM perto de enlouquecer. E não estamos falando de ficar "maluquinho", "doidão", "biruta" ou algo assim, não. A loucura aqui não é uma coisa bonita, é perturbadora pra cacete.



"Everyone says hi 
Everyone says hi 
And the girl next door 
And the guy upstairs 
Everyone says hi 
And your mum and dad" 
Everyone says hi


Outros pontos positivos da história: uma das melhores formas de se representar graficamente a passagem do tempo e o tédio decorrente disso EVER. Sério, dêem uma olhada e me digam se estou errado. 

As cores de Cris Peter também são lindas e casam perfeitamente com os desenhos de Beyruth. Tem uma cena de página dupla, já no final da revista, com o Astrounauta solto no espaço sideral que é belíssima, de querer enquadrar e pendurar como poster no quarto.



"Don't you wonder sometimes 
About sound and vision"
Sound and Vision


Citando "Solaris", de novo, "Man was created by nature in order to explore it. As he approaches truth, he is fated by knowledge". Em cada um dos filmes que eu citei que discutem sobre a relação do homem com o (e no) espaço sideral, os criadores pretendiam olhar pra fora, para, na verdade, olhar pra dentro, para aquilo que nos faz humanos, para aquela "verdade" abstrata que nos define como seres pensantes e capazes de filosofar sobre a própria existência. "As above, so below", se me permitem a citação. E é fascinante ver como "Astronauta - Magnetar" acha um jeito muito legal de mostrar que essa "verdade" não precisa ser um grande conceito de física que vai redefinir nossa relação, coletivamente, como espécie, com a vida, o universo e tudo mais, mas, às vezes, pode vir na forma de um conselho de avô (ou na pagina de uma HQ, ou na letra de uma música), importante o suficiente pra causar uma mudança na consciência de um indivíduo, o que pode parecer menor, em uma escala universal, mas não duvidem que pode igualmente, ter o efeito de um big bang no "universo" ambulante e perpetuamente instável que somos todos nós. 





"The moon flows on to the edges of the world because of you
Again and again
And I'm awake in an age of light living it because of you
Better take care
I'm looking at the future solid as a rock because of you
Again and again
And I'm running down the street of life
And I'm never gonna let you die
And I'm never ever gonna get old"
Never get old



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

terça-feira, 13 de novembro de 2012

"Ed Wood has a plan for your life"


Pro pessoal que vive dizendo que eu só falo mal de religião, que eu não respeito as crenças alheias, que eu sou insensível à necessidade de espiritualidade das pessoas, CHUPEM ESSA, seus filhos da puta!!! \o/
Meu certificado de membro da Sagrada igreja de Ed Wood. Sou um homem renascido!!!
Amém, irmãos. ^^

John Waters: Why You Should Watch Filth



Vejam bem: se ESTE HOMEM falou, agora é lei.
Não coincidentemente, eu e Stella devemos fazer maratona John Waters esse final de semana (Cry-Baby e Female troubles).
All hail to John Waters!!!!!

COCTEAU TWINS-IVO



Mano, eu adoro essa música..... ^^

Shin sekai yori - Eps. 01 a 06 - Unleash Hell!!!!!




Ok, demorei, mas finalmente vai rolar a matéria com spoilers de Shin Sekai Yori.
No texto anterior já dei uma pequena contextualizada, apresentei os personagens e escarafunchei um pouco a trama da história.
A partir daqui, crianças, é ladeira abaixo. 
Let's go?

"THEN" - OS FLASHBACKS

Foram 3 até agora, contando um pouco do contexto da história (ainda que apenas fragmentos, que vão ser desenvolvidos MESMO lá no quarto episódio). No primeiro (no ep. 01) vemos um garoto matando geral, sem encostar nas pessoas. Telecinésia. Pessoas explodem, liquidificam.
O flashback do ep. 02 nos situa 500 anos depois do ocorrido no ep. anterior. O mundo que vemos é muito parecido com o Japão feudal, onde vemos a condecoração do novo regente, que recebe o título de "Imperador da Alegria".

O Imperador da alegria.


E aí, seu primeiro ato é levitar sobre o público que o ovaciona e dizer-lhes que os primeiros 100 que pararem de bater palmas serão mortos como sacrifício para o novo imperador.
No terceiro e (até o momento) último flashback, vemos um grupo de renegados que invadem o palácio imperial com o objetivo de matar o imperador. Os 3 parecerem-se com humanos normais, mas mesmo assim, conseguem cumprir sua missão. 

"AND NOW" - A LINHA DE TEMPO ATUAL

Ok, o que sabemos até aqui: vamos acompanhar a história pela perspectiva de 5 crianças: Saki, Mamoru, Shun, Maria e Satoru. No mundo em que vivem, após uma certa idade, lá no final da puberdade, seus "dons amaldiçoados"ou "espírito de benção" (traduzindo: a telecinésia) se manifesta pela primeira vez.

O despertar do Cantus de Saki


Devo dizer que esse é um aspecto da história que a princípio me deixou um pouco confuso: todos manifestam poderes nesse mundo ou não? Num primeiro momento, fiquei com a impressão de que o tal gato das sombras, ou copiador, vinha atrás daquelas crianças que não despertavam seus poderes latentes, mas como o bicho foi visto nos arredores da escola, devo ter me equivocado nessa dedução.

De qualquer maneira, Saki desperta aos berros levitando coisas no seu quarto. Os pais dela parecem extremamente aliviados com a manifestação de seus dons e o próximo passo é seu "batismo". Vemos a seguira garota sendo levada até o templo da pureza, onde o mestre budista Mushin realiza o ritual de selamento do Cantus. Os poderes de Saki são selados e queimados. a seguir, ela recebe um mantra que irá despertar novos poderes.

O Ritual de selamento da Saki.


O despertar do Cantus (outro nome pros dons telecinéticos), nesse mundo, é o elemento que determina o final de uma fase no processo educacional das crianças e o começo de outro. Elas se formam na Escola Harmonica e passam a fazer parte da Academia do Saber, um colégio para treino e desenvolvimento do Cantus. (Vale notar a rima narrativa que temos quando os garotos estão conhecendo a escola e vão para uma fazenda nas proximidades. O que chama a atenção inicialmente é a estranheza dos guris diante dos animais, mas é curioso perceber como estas crianças estão sendo doutrinadas, tal qual os animais, dentro de uma rotina específica e com uma função que futuramente, ficará clara).
Nessa escola, as crianças vão aprendendo os dogmas sagrados desse mundo (Tudo, sempre, sob uma perspectiva que mescla educação - inclusive científica - e religião - no caso, o budismo).

- não usar os poderes de forma violenta
- não ultrapassar os limites da cidade, adentrando o que é conhecido como "zona proibida".
- não serem solitários (isso é ensinado por meio da parábola do garoto que se tornou um demônio por excesso de carma negativo. "Solidão faz as sementes do pecado darem frutos")

No ginásio, conhecido como "Academia da apoteose" os garotos são treinados num esporte que envolve a levitação indireta de uma esfera de metal gigante. Na verdade, obviamente, o que se está desenvolvendo aqui é a interação entre as crianças e o desenvolvimento do uso de seus poderes sob alguma disciplina. 

ok, pausa aqui: algumas reflexões. Primeiramente: só eu vi uma metáfora clara do ato do selamento do cantus (que envolve alguma dor física com a destruição do selo onde o cantus está confinado) com a perda da virgindade? Isso me parece ser reforçado já que estamos vendo a coisa, inicialmente, pelos olhos de uma menina entrando na adolescência e tal (e historicamente falando, rituais de entrada na vida adulta costumavam envolver algum derramamento de sangue, como no caso de algumas tribos indígenas).

O selamento do Cantus de Saki.


Além disso, a educação das crianças é toda alicercada em cima de dogmas, ou seja, verdades indiscutíveis e paranóia.
O que é a história do demônio do carma senão uma crítica ao pensamento independente? E ao se concentrarem no fato do menino ser destruído pela solidão, o que é reforçado aí é a força do grupo, mas mais como agente alienante (coisa que vai ser reforçada com o que vamos descobrir nos episódios vindouros) do que como elemento de emancipação (não, o grupo não é maior do que a soma de seus indivíduos). 
A própria essência da sociedade, o mais teocrática que pode ser (já que estamos falando de budismo, onde, teoricamente não existe uma figura central de Deus), pressupõe o não questionamento. Que me perdoem os religiosos, mas toda doutrina de fé pressupõe aquelas verdades que vc não questiona, afinal....como eu já disse... fé. Por mais pseudo-racional que possa ser, qualquer religião vai trabalhar com um "gap" intransponível separando o "sacro" do "intelectual". E isso nem é uma crítica, mas sim, uma afirmação de fato.

Paralelo a isso, temos o desaparecimento das crianças.
Outro ponto que ainda não ficou completamente claro pra mim: quem some? Os indivíduos mais notáveis ou os menos? Pq se alguém aparentemente sem domínio de seus poderes como a Reiko desapareceu, indivíduos particularmente super-dotados no que se refere à telecinese como o garoto Katayama (o capitão do time que disputou a partida com o time dos protagonistas) ou o próprio irmão da Saki também sumiram. E aí, foram todos para o mesmo local? E que local (ou locais) seria este?

Enfim, passamos dos 3 primeiros episódios. Religão como alicerce social e meio de controle das massas (como, aliás, sempre foi). Controle por meio da paranóia (idem). Ah sim, e não posso me esquecer de mencionar os Bakenezumis. Como disse no outro texto, essas criaturas (tb conhecidas como queerats) são humanóides com aparência de roedores que servem pra trabalhos braçais. Os bakenezumis possuem uma linguagem própria e respeitam os portadores de Cantus como se estes fossem entidades divinas. No entanto, as crianças são avisadas que as criaturas sabem que estas não possuem pleno controle de seus dons e portanto, podem agir de forma imprevisível em contanto com elas, principalmente as raças de bakenezumis selvagens. No entanto, apesar de tudo isso, a sociedade em que os garotos moram vive num relativo estado de tranquilidade.

O problema todo gira em torno da natureza essencialmente curiosa da raça humana. Curiosa e desobediente. Os garotos recebem uma tarefa da escola: vão poder ultrapassar os limites da cidade e se embrenhar na floresta por alguns dias. 

Depois de algumas aventuras divertidas, decidem caçar uma criatura lendária, que seria capaz de matar com um olhar: o minoshiro. E após alguns percalços, conseguem apanhar o bicho..... para descobrir que na verdade, trata-se de uma criatura meio máquina, meio biológica. Uma espécie de computador vivo. Um centro de informações. Uma biblioteca ambulante, com toneladas de informações armazenadas.

O Minoshiro


Vêem algum padrão aqui, crianças? Retomando: mundo sob rígido controle religioso. Além disto, uma sociedade de castas bem definidas: no topo, os dotados de cantus. No meio, os humanos normais. No fim da pirâmide, os Bakenezumis. As crianças sabem os riscos que correm ao contrariar as regras sociais e mesmo assim, inevitavelmente acabam indo contra tais leis pq.....bem, pq são humanos e, mais ainda, humanos adolescentes. A raça mais potencialmente incontrolável do universo. Dias antes do encontro com o minoshiro, as crianças já haviam quebrado algumas regras ao lidarem diretamente com dois bakenezumis. Um deles havia caído no rio e iria inevitavelmente morrer se não fosse pela ação de Saki.
Não importa o quanto um sistema seja controlado, é impossível prever as variáveis envolvidas, principalmente quanto lidamos com criaturas tão imprevisíveis (ou não?) quanto humanos.
Dessa forma, mesmo que com a relutância de alguns dos membros do grupo, os 5 conseguem encurralar o Minoshiro e, uma vez cientes da natureza deste, decidem fazer algumas perguntas inconvenientes sobre a história do mundo em que vivem.
É possível perceber aí aquela..... não sei.... coceira na alma, como dizem na filosofia, presente nas crianças. Mesmo num mundo teoricamente em paz, algo está errado. Não se sabe o que, não se sabem onde está esse erro, só se sabe que ele existe. E eis aí, na figura da biblioteca viva, uma chance de abrir os olhos. A pílula vermelha da Matrix. E o resultado......

"A verdade NÃO o libertará".

Ano de 2021 Dc: Um garoto desenvolve a telecinese do nada (o que. segundo o Minoshiro, recebe, a princípio o nome de Sindrome Hashimoto Applebaum). Diante de tal poder, ele examina todas as suas possibilidades e acaba decidindo pelo uso mais cruel possível: invade a cada de 19 mulheres e as estupra, matando 17 delas.

O primeiro telecinético da história - o começo do fim


No mesmo ano, o doutor Imran Ismalov, da república do Arzebaijão comprova cientificamente a existencia da telecinése, que por alguma razão (teoria do campo morfogenético em toda sua glória?) começa a se manifestar em mais indivíduos. Mais precisamente, em 0,3% da população do planeta. Pouco? Talvez, mas coloquemos isso em números. Isso dá mais de 20.000 pessoas. Cada uma delas capaz de mover um tanque de guerra com a mente.

Impressionante, não? Com o tempo, os dotados vão sendo utilizados em guerras e, posteriormente, ataques terroristas. A humanidade, como seria de se esperar pq afinal, nenhuma raça gosta de ser substituída, decide se levantar e declarar guerra. E aí eles se fodem, obviamente, pq a evolução tem um senso de humor meio cruel. A guerra resultante desenvolve ainda mais os poderes do novo grupo.

Saldo final: 98% da população da terra vai pro saco. A configuração política do mundo que sobra se divide em 4 grupos distintos. 
1 - Os usuários: Grupo onde vivem humanos e dotados. Obviamente os humanos vivem sob o jugo de seus sucessores evolutivos e esse jugo é o mais sanguinário possível (é o mundo do segundo flashback, o do imperador da Alegria)
2 - O reino dos não usuários: onde vivem humanos normais, fugitivos do primeiro reino e que vivem em guerra com estes.
3 - Os bandidos: Usuários de telecinese que vivem a margem dos dois outros reinos, roubando ambos sempre que possível e, por fim....
4 - O reino dos cientistas: Nessa sociedade, humanos e usuários vivem em relativa harmonia, com os ultimos elementos de tecnologia remanescentes da sociedade anterior. Essa é a raça que desenvolveu os minoshiros e, provavelmente, os bakenezumis. 

O Japão teve 4 dinastias dessa configuração e a ultima delas, a da Sakura Sagrada, é a que vemos indo pro saco no flashback do terceiro episódio (a mais sombria dentre todas, onde, para o imperador, "matar era algo tão comum quanto respirar"). Com isso, e considerando que até o momento, não houve nenhuma aparição do grupo de bandidos, presume-se que, com a derrocada dessa dinastia, o reino dos não usuários e o dos cientistas se fundiu, gerando a sociedade na qual os protagonistas vivem.
O problema é que, como sabemos, a história é cíclica, e os humanos decidiram criar meios de controle para impedir uma nova guerra entre os dois grupos (e aí, os dotados basicamente se ferraram).

Quais métodos foram estes, vcs me perguntam: pois bem:
Primeiro, pensou-se num esquema de controle rígido. Sim, como vcs podem deduzir, estou me referindo a organização teocrática (não sei se o termo se aplica aqui, já que, teoricamente, o budismo não gira em torno da figura de um deus, mas por falta de algo mais preciso fica este). Repressão sobre qualquer tipo de tema espinhoso. Na dúvida, não se fala sobre isso pq "Deus não gosta". Educação e uma abordagem mais psicológicas são utilizadas, além de testes para encontrar usuários potencialmente perigosos. 
Além disso, etologia e manipulação genética. Estudos na natureza separam características que sejam interessantes de se aplicar aqui, e duas raças apresentam os melhores resultados: lobos e macacos. Dos lobos, pegou-se a idéia que resultou na "morte por vergonha". Nenhum membro da própria matilha pode ser atacado. Trocando em miúdos: Se um dotado atacar um humano, um gatilho genético vai lhe provocar o aumento de certas substancias no organismo até um nível letal, provocando ataque cardíaco. Isso explica a reação estranha que as crianças tinham com qualquer coisa remotamente ligada ao conceito de morte. Lembra de como as crianças olhavam de forma suspeita para aquelas moscas voando ao redor do cadáver de um animal, no terceiro episódio? Memória genética de uma época em que milhares de corpos apodreciam à céu aberto? 
Além disso, temos a "sociedade do amor". Qualquer possível conflito vai ser dissipado com, mais uma vez, um gatilho genético liberando hormônios sexuais, independente do sexo dos conflitantes (isso teria sido "pego emprestado" dos macacos bonobo, que resolvem seus conflitos basicamente praticando o coito). Lembram que no texto anterior eu disse que eles usavam o elemento moe típico dos animes atuais de um jeito bem criativo? Taí. As cenas de abraço, os amassos entre protagonistas e tals, não são só coisa pra agradar otaku babão e sim, elementos de roteiro ou, no caso da trama, mais um elemento de controle social. 

OBVIAMENTE a notícia não é bem recebida pelos guris. Então, basicamente, eles estão dentro de uma gigantesca matrix religiosa (na verdade, um campo de doutrinamento de portadores do Cantus) e seus próprios genes trabalham contra eles......

......ou não?

Os dois episódios seguintes, o 05 e o 06, tratam dos meninos tendo que se virar depois de serem atacados por um raça extremamente numerosa e hostil de bakenezumis selvagens, a colonia Ground Spider (e isso sem seus poderes, já que eles foram selados por um monge que os capturou. Como eu disse, falar com o Minoshiro é um crime grave e essa é a punição deles. É aí que eles são atacados e Rijin - o monge -  em questão é morto)
Nesse momento, mais uma vez, os garotos recebem mais uma rasteira da evolução (e eu repito aqui, "evolução é uma vadia inconstante"): enquanto fogem, encontram uma outra tribo de bakenezumis, em muito menor número, dizimados pelos Ground Spider. E entre eles, um bakenezumi inteligente. Capaz de utilizar a linguagem humana.

O que virá?

Ok, feito essa gigantesca recapitulação, a pergunta é: e agora? Antes de qualquer coisa, duas perguntas: o que seriam os demônios de carma (ou, simplesmente, portadores da síndrome da raposa no galinheiro, segundo a biblioteca viva) e eles realmente existem? E mais importante: o que seria a tal síndrome de Larman Krogeus, sobre a qual o minoshiro estava falando quando foi morto pelo monge?

Um demonio de carma


Bom, além disso, temos alguns vislumbres de que os protagonistas da história são mais importantes do que podem parecer num primeiro momento:

O grupo acaba se separando e Satoru e Saki acabam sozinhos. Momento de crise, tensão, e aí...bang... o gatilho sexual dispara. E temos a profundamente desconfortável cena dos dois se preparando pra....bem.... procurarem um certo alívio de toda essa guerra. Amasso aqui, amasso ali e....... Saki para. Desiste. "Nós não somos macacos". O gatilho falha.

Outra, outra: O Rijin que captura os meninos é morto pq "a morte por vergonha" se manifesta depois dele atacar os queerats selvagens (na verdade, quando o Minoshiro morre, ele libera uma última imagem residual de uma pessoa, de forma a provocar um mal estar que seria uma espécie de reação em menor intensidade da morte por vergonha. Mas depois, as crianças claramente afirmam que é a semelhança dos bakenezumis com humanos que piora a situação do homem). Então, no ep. 06, Saki consegue recuperar os poderes de Satoru. O primeiro ato dele? Libertar os dois da caverna e passar geral os Bakenezumis que os atacavam. E sem apresentar qualquer uma das sequelas que resultou na morte do acima citado monge, muito pelo contrário. O garoto manifesta inclusive um prazer sádico no processo, o que pode significar duas coisas: ou ele não disparou o gatilho genético auto-destrutivo pq ele simplesmente não vê os queerats como humanos, e sim como animais; ou ele simplesmente é capaz de burlar a programação genética, tal qual Saki fez anteriormente.

Satoru: botando pra foder!!!


E isso pode talvez, indicar que os garotos (não apenas os 5 protagonistas) podem estar evoluindo de forma a poderem superar a pré-programação genética. Vc junta isso à crescente insatisfação social somada às novas informações que possuem e o resultado é um barril de pólvora prestes a explodir. 
Outro foco, paralelo aqui, é o papel do Bakenezumi inteligente (se ele tem um nome, eu juro que não lembro agora). A princípio, ele parece meio idiota, apenas um animal que fala e tals, mas depois do ep. 06, me parece que a criatura está usando Satoru, com plenas forças, para apagar da existência a tribo Ground Spider, o que cria uma dinâmica curiosa aqui. Mais uma vez, fazendo uma auto-referência, ninguém disse que uma raça preterida evolutivamente precisa aceitar sua própria obsolescencia de forma passiva. Foi assim com os humanos ao tentar criar mecanismos de controle para os portadores do Cantus, e é possível que tb seja assim com esse queerat.

A tribo "Ground Spider"


Vale lembrar também que, na série, temos uma narração em off de uma versão adulta da Saki, que vez por outra, cita alguma tragédia de proporções planetárias que teria começado ali, naquele reino, e que estaria diretamente ligada com um dos membros do grupo. Maria estaria no olho do furacão. Mais do que isso (ainda) não sabemos. 
Eu, devo dizer que consigo vislumbrar algo de ruim acontecendo com a menina e uma aliança surgindo entre bakenezumis (talvez a tribo do queerat inteligente somada aos remanescentes da Ground Spider?) e dotados de forma a destruir a sociedade que os restringe. E aí, o inferno é o limite.
Por fim (pq esse texto está gigante) vale ressaltar mais uma vez que Deus pode não jogar dados, mas a evolução não parece ter restrições a esse respeito. Os meninos, neste mesmo episódio 06, são atacados por diferentes tipos de bakenezumis, criaturas beneficiadas (o uso não podia ser mais irônico aqui, já que o processo evolutivo é tudo, menos remotamente moral) pela irradiação evolutiva: existem queerats que se parecem com plantas, se camuflando perfeitamente em meio às arvores. Outros aquaticos e alguns com aspectos de toupeiras. Alguns pequenos, e outros com mais de 3 metros de altura, aparentemente dotados de uma absurda força física. Queerats capazes de criar ferramentas sofisticadas (como os sintetizadores de gás venenoso que vemos. E mesmo que o maquinario seja remanescente de sociedades humanas que ali viveram, ainda assim, os bichos foram espertos o suficiente para adaptar as maquinas às suas necessidades belicistas) e inclusive capazes de adotar táticas de guerrilhas, o que inclui até mesmo ataques suicidas (uma certa metafóra do ocidente capitalista vs. o oriente médio da Al-qaeda aqui ou viagem minha? deixo pra vcs decidirem). 

Fascinante, não? 3 raças. 3 espécies. Uma futura chacina pra acontecer. E no meio disso tudo, 5 crianças questionando seu papel numa sociedade que pré-determinou cada passo de suas vidas. Crianças estas que, cientes de sua condição de cativos, começam a se rebelar contra esta organização social repressora, e que começam a descobrir que, literalmente, possuem o poder pra mudar as coisas de vez.

Evolução odeia estagnação e tals, só dizendo. 

O resultado disso a gente vai ter que esperar a história terminar pra ver, mas essa tem tudo pra ser A série de animação desse ano. 
Eu continuo agora (em textos mais concisos, eu juro) resenhando episódio por episódio assim que saírem.
Até a próxima, guris.




segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Rebuild of Evangelion - 1.11 e 2.22





Sério agora: tem duas formas de enxergar os novos filmes pra cinema que recontam a saga de Evangelion. Ou pelo menos, num primeiro momento: a de que a) estão tentando espremer o máximo que dá da franquia ou b) Isso na verdade é o Anno tentando recontar a história da série direito, usando uma caralhada de dinheiro e os efeitos especiais disponíveis hoje em dia pra isso. Pq, por mais que eu goste pra cacete da primeira série, convenhamos, é visível a falta de dinheiro ali (e é muito legal como a equipe de produção usa essas limitações de formas muito criativas, como a clássica cena do Kaji e da Misato na cama). 
E..... bom.... eu só posso me basear no que eu vi aqui e devo dizer algumas coisas: 
Primeiramente, eu senti uma puta falta das, por falta de termo melhor, viageiras psicológicas do Shinji e dos demais personagens. Tem um ou outra pontualmente colocada ali, mas obviamente, pelas limitações de tempo, a coisa é mais diluída. Os comentários de que os filmes seriam feitos de forma a serem mais acessíveis que a série meio que são verdade..... meio que. Sim, a maioria dos personagens discute os aspectos mais espinhosos do universo de Evangelion (a natureza do projeto da instrumentabilidade, a relação entre os humanos e os anjos, a real natureza dos Evangelions e até pontos que eram meramente sugeridos anteriormente, como a possibilidade da presença de almas humanas em cada uma das 3 unidades de batalha) de forma bem mais expositiva do que na série original. Além disso, como já dito, a carga psicológica é um pouco amenizada em prol da ação, mas nada que desfigure a história. O Shinji ainda é um banana, a Asuka ainda tem a fachada de durona mas com interior todo quebrado e a Rei ainda tem suas crises de identidade enterradas em uma fachada semi-autistica. 

Apocalipse all over again.


Segundo: Os efeitos especiais são lindos. Sério, eu tive dificuldades de rever o longa que encerra a série depois de ter visto os dois filmes. Cada um dos anjos parece mais um conceito abastrato com forma física do que uma criatura viva (coisa que já tinha na série, mas os efeitos 3d elevam isso de forma épica). Meu preferido é o sexto anjo, que parece uma fractal em constante mudança de forma. 
Terceiro: eu fiquei sentindo muito que eles tinham que refazer a série sim, mas não em forma de filmes, mas de uma nova série de 26 episódios, recontando a história do original e com os efeitos atuais. Eu mataria pra rever essa história, agora reunindo os recursos dos filmes com a densidade emocional e intelectual da primeira série.
E por ultimo: Tudo isso acima é válido e tals, mas é incrível como vêm o segundo filme e manda tudo pro cacete. 
Ok, a partir daqui, spoilers. Pesados. Mesmo. Sério, eu não tô brincando

.... ainda aqui?

Ok.

Então, tava lá vendo o primeiro filme, maneiro, etc. Aí aparece o Kaworu, meu personagem favorito. E ele olha pra Adão e manda "novamente a terceira criança?"

Kaworu diante de Adão: whatta fuck??


E eu... woooow...
Aí a Misato leva o Shinji pra área proibida dentro do Geofront, e revela o anjo cativo ali. E vc vai lá, achando que já viu aquilo e aí, ela manda... "Esta é Lilith, fonte de toda a vida da Terra".
WAIT, WHAT??????
E vão se juntando detalhes, e o sobrenome da Asuka é outro, e as águas dos mares são vermelhas (como no final de "The end of evangelion") e aí.... aí eu fiquei com a nítida impressão de que o Anno está preparando a mãe de todas as trolladas: a de que essa série não é um reboot da série original, mas uma continuação direta. De alguma forma, uma espécie de time-looping onde os personagens estão presos esperando que algo aconteça de forma a corrigir algo que aparentemente estava errado. Manja o dia da marmota ou, pros fãs da Haruhi, o infame "Endless eight"? Então, mais ou menos isso. Impressão essa reforçada pelo título do terceiro filme: "Evangelion 3.33 - You (cannot) redo". Qual seria o catalisador de uma possível timeline alternativa: algo que o Shinji fez ou deixou de fazer? Talvez, a instrumentabilidade que deveria ter ocorrido e o impedimento da evolução humana foi uma falha de tal gravidade que a história está se reescrevendo até correção desse desvio. Ou seria algo relacionado a algum dos demais personagens? Perguntas e mais perguntas.... 
Da forma que termina o segundo filme (com o Kaworu no Eva 08, atirando a lança de Longinus no Eva 01, impedindo assim o que parecia um inevitável terceiro impacto) a história pode seguir pra qualquer lado, desde um que, apesar das particularidades, siga mais ou menos o rumo original, ou....... 
.....ou algo completamente diferente. E é pra esse lado que eu acho que a história vai...

Mari, a nova personagem



Outros comentários pertinentes: Eu fui achando que ia odiar a tal nova personagem, Mari. E nem rolou. Na verdade foi absolutamente o inverso. Eu acho que Mari pode se tornar um personagem central dentro da "nova" trama (embora muito pouco tenha sido mostrado dela. No ponto em que estamos, ela não tem muita densidade, funcionando como uma personagem cujo "core" é ser um piloto de Eva e pouca coisa além disso...bem, além de ser badass pra cacete. O que foi a menina fazendo o Eva dela entrar em modo "Berserker"? Um momento bem "massavéio" feito pra agradar a platéia e que, devo dizer, funcionou comigo). Talvez o desenvolvimento dela corra de forma paralela ao de Kaworu que, pelo trailer lançado recentemente, vai ocupar um papel central no próximo filme. E aí tudo descamba pro quarto e último filme do Rebuild, e vai ser fascinante ver em que ponto ele vai largar os personagens, tanto em termos de história quanto em seu papel na cultura pop mundial. 
Minha única crítica vai ao excesso de fan-service. Incomoda um pouco ver meninas de 14 anos nuas ou em posições meio ginecológicas, mas .....bem, fazer o que, exigências de mercado. O otaku babão gosta desse tipo de coisa, e como já dito acima, Anno tava disposto a fazer concessões pra uma maior recepção.
Enfim, gostei pra cacete do que vi, os efeitos são lindos, a história, mesmo menos densa ainda é pesada pra cacete - não coincidentemente, minha cena favorita é uma passada quase que inteiramente dentro da cabeça do Shinji e da Rei, quando o piloto do Eva 01 tem que resgatar a menina, aprisionada com seu Eva dentro de um dos anjos. Vemos a coisa de duas perspectivas, a literal, com a unidade 01 entrando no corpo do anjo, mas também de forma metafórica, onde um Shinji inseguro, mas determinado, tem que se esgueirar por várias camadas até alcançar Ayanami e traze-la de volta pro mundo real. Simbólico pra cacete, não? -  e tem potencial pra ser algo quase tão mind-fucker quanto a da série original, então, escutem alguém que é fã incondicional de Evangelion, podem ir assistir sem medo. 

Segue o trailer de "Evangelion 3.33 - You (cannot) redo.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Amanda Palmer - The Killing type



Do cd mais recente dela, "Theatre is evil".

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Apofenia

Matrix, Reloaded e Revolutions, o documentário do Lcd Soundsystem, o título do livro do Harold Bloom - abaixo as verdades sagradas, o disco novo da Amanda Palmer, Budismo, os quadrinhos de Jonathan Hickman, Alan Moore, "O mundo de Sofia", Shin sekai Yori, Haruhi, uma conversa com o dono da casa em que moro. As horas (e os devaneios), Doctor Who, Buffy, vida, morte, Evangelion, V de Vingança, "The Future" da Miranda July, Mr. Nobody, Donnie Darko e Southland Tales. "The third age". The Transpersonals. Grant Morrison e os Invisíveis. Grant Morrison e Flex Mentallo. Grant Morrison e o Homem-Animal.



"Engraçado como as coisas se conectam...."

Cinco motivos pelos quais eu gosto mais do filme de V de vingança do que das HQs.


Ok, senhores, vejam o título desta matéria.

Ele diz "5 MOTIVOS PELOS QUAIS O FILME DE V DE VINGANÇA É MELHOR QUE A HQ"? Diz? Não, certo? ótimo, então encerramos aqui qualquer possível discussão sobre como adaptações sempre empobrecem a obra original, ou de como certas obras são feitas pra uma mídia específica e pensando exatamente nas características intransponíveis dessa mídia em questão, e etc. 

Eu sempre tento tomar cuidado com isso, inclusive fora do blog. Sempre pensar em termos de "minha obra ficcional preferida" e nunca "a melhor obra de todas" pq eu sei a diferença entre ambas. "A melhor de todas" demanda a avaliação de diversos aspectos técnicos e um conhecimento da obra e da história pregressa dela que seja, pelo menos razoável. Eu nunca diria "este é o melhor filme de terror de todos" sem considerar atuação, roteiro, todos os filmes que eu vi que são anteriores a este e etc. Agora, quando partimos pra área do "meu preferido" aí, desculpem a sinceridade, mas toca-se o foda-se. Vc poderia dizer que "Howard, o super pato" é a porra do seu filme favorito e eu não teria como argumentar (teria, claro, como questionar sua sanidade, mas faria isso apenas de forma mental, eu juro).
Se seu disco do coração é algo do Bon Jovi, de boa, guri. Só não vem me dizer que é o melhor do mundo.

Isso posto, eu tenho plena consciência de que existem, como já dito acima, diferenças entre filme e HQ e mesmo na lista abaixo, eu questiono a validade de um ou outro argumento meu. É plenamente possível que a HQ seja milhares de vezes melhor que o filme, até por ser uma obra cujo conteúdo dificilmente poderia ser concentrado em duas horas de filme. Mas aí entra a parte subjetiva que se deu em meu contato com ambas as versões. 

Feito esse gigantesco disclaimer, podemos seguir adiante. Então, hoje é 5 de novembro e, diabos, como eu adoro defender uma boa causa perdida, resolvi aproveitar pra tentar expor uma.... sei lá.... não vou chamar de birra contra a hq de V de Vingança pq não quero entrar num debate dialético comigo mesmo, mas é mais ou menos isso. Eu vejo todo mundo sempre falando do filme como "é claro que não é tão bom quanto os quadrinhos" mas em um ou outro momento eu me questiono: "não é MESMO?"
Antes, vem aquela parte da contextualização: Pra quem não sabe, "V for Vendetta" é uma Graphic Novel escrita pelo genial Alan Moore e desenhada por David Lloyd. Conta a saga de V, um homem (ou super-homem?) lutando contra um estado totalitário e arregimentando a jovem Evey Hammond, que pode se tornar sua sucessora nessa cruzada de justiça e (principalmente, e esse é um ponto que as pessoas frequentemente tendem a esquecer, mesmo considerando o nome do filme/quadrinho) vingança. Resumindo MUITO, é isso.


Eis aqui 5 razões pelas quais eu questiono essa suposta inferioridade da adaptação sobre o original e, pra ser justo, uma razão extra de pq eu gosto pra caralho da HQ, independente de qualquer coisa: 

5 - Os desenhos: Ok, aqui a coisa é absolutamente subjetiva, mas eu nunca simpatizei muito com a arte da série. Não que ela seja feia (e o que seria arte feia, de qualquer maneira?) de forma nenhuma, e nem é o caso de não gostar dos desenhos de David Lloyd, a questão é mais simples: eu tive uma certa dificuldade, da primeira vez que li a série, de diferenciar um personagem e outro. Sim, poderiam dizer que se eu leio hqs de super heróis, esse é um drama constante, e eu concordo (ou mangás, dependendo do desenhista, onde só o corte/a cor do cabelo e as roupas distinguem entre um sujeito e outro), mas ainda assim, é algo que me incomodou. Admito que esse é um argumento questionável pq como essa dificuldade de diferenciar ocorreu principalmente entre os membros do partido, o inimigo contra o qual V se levanta, poderiam alegar que essa semelhança entre os indivíduos seria proposital, de forma a salientar como o fascismo uniformiza, distinguindo quaisquer semelhanças, aquela idéia de "pensamento colméia" onde o indivíduo é descaracterizado em prol do coletivo e tals. Ok, excelente argumento, mas foi uma escolha estética que não funcionou muito bem comigo. Obviamente, esse foi um problema inexistente no filme, já que os atores são todos distintos entre si.

4 - O partido: Outra escolha complicada que não funcionou como deveria comigo. Eu entendo que era importante mostrar como funcionavam as engrenagens do partido, a luta interna por poder, na figura de Helen e Conrad Heyer e de toda sua preparação pra ocupar o lugar mais alto no poder. Mas de novo, acabou não funcionando comigo pq, sério, se vc já leu/viu qualquer, veja bem, QUALQUER obra distópica do tipo, vc já sabe mais ou menos como é a dinâmica interna desse tipo de organização, portanto, essa sub-trama acabava roubando atenção daquela que eu queria ver, que era a história do V e, paralelamente, a da Evey. 

3 - Os momentos mais trash: Sério, o que é aquele general ficando catatônico pq o V derreteu a coleção de bonecas dele? e claro, a morte do Gordon, mas eu retomo isso depois.

2 - O final: Aqui não é bem uma bronca. Vejam bem, eu gosto bastante do final da HQ, mas em termos de mensagem política, eu gosto bem mais da do filme. Nas Hqs, Evey termina usando o uniforme do V e continuando com a luta. A tocha foi passada, da mesma forma que no filme, ainda que de um jeito mais pé no chão. E é aí que eu fico balançando, pq, diabos, se é pra abraçar um fio de esperança, vá lá, utópico (não é bem o termo que eu queria aqui, mas fica) de mudança real e permanente diante de um contexto de opressão social, eu prefiro a mensagem mais rasgadamente utópica do final do filme, seja ela entendida de forma literal ou metafórica. Enquanto nos quadrinhos Evey luta pra que cada indíviduo se torne o V, no filme, efetivamente as pessoas se tornam o anti-herói. As pessoas insatisfeitas, os oprimidos, o 1% :-). E além destes, todos aqueles que morreram em prol da desintegração deste estado de coisas corrupto (personificados na presença dos personagens que morreram como Gordon, a garotinha de óculos e a atriz, vizinha de cela de V). Vítimas, mas também catalisadores destas mudanças.

E aí chegamos naquilo que sempre me incomodou na Graphic Novel e que eu prefiro muito mais na versão do filme: 



A real protagonista da história

1 - Evey Hammond: Sério, que me perdoem os fãs, mas a Evey dos quadrinhos é uma constante vítima das circunstancias. A mudança dela nunca me convenceu muito pq, pra começo de conversa, os acontecimentos que a causaram sempre me pareceram meio convenientes demais. Uma hora ela é uma vítima oprimida nas ruas, daí passa a ser cumplice do V. Aí ela foge e vai conviver com o Gordon que é morto de um jeito completamente aleatório (ele é assassinado por Aliston Harper, um chefe do crime local. E me perdoem os fãs - novamente - mas este é definitivamente um personagem de que não gosto, me parecendo fora de lugar o tempo todo), e mais uma vez, a pobre garotinha fica solta no mundo. Desculpem novamente, mas ela parece vítima de uma série de eventos que convenientemente se aliam de forma a mostra-la como uma pobre moça que, tal qual uma bola de pinball, bate e rebate em todos os lados até cair de vez na mão do V. A do filme não. Ela já é uma ativista política quando a história começou. É tb, insegura, mas num nível que soa perfeitamente crível (afinal, quantos ativistas políticos estão dispostos a cruzar a linha que separa o ativismo seguro da sempre perigosa desobediência civíl, e quantos destes dispostos não vão titubear antes?). E todas as mudanças sofridas são consequência direta da mão absolutamente visível do estado, oprimindo e caçando os próximos a ela. Nesse ponto, a relação dela com Gordon, completamente diferente da versão em quadrinhos, não é um momento solto, mas mais um elemento que constrói a visão de mundo da personagem que vai culminar no tipo de transformação capaz de tornar a menina forte, mas ainda assim frágil do começo do filme, para aquela que vai se tornar o projeto final do V. Aquela que deve ser o avatar de um novo mundo, não mais regido pelo medo, pela violência e pela opressão, mas por um conjunto de novos valores. O velho mundo morre com o V. A partir dali, o mundo vai se reerguer sob o cuidado de pessoas como Evey. Essa sim foi uma progressão de acontecimentos perfeitamente crível pra mim (ajuda também Natalie Portman, Hugo Weaving e Stephen Fry botarem pra foder no filme. Palmas pra quem selecionou esse cast pq não tem nenhuma peça ali fora de lugar - mesmo John Hurt, que alguns dizem estar meio exagerado no papel me pareceu correto ali, personificando a figura do "Grande irmão").


dito tudo isso, tem um momento que tem nas hqs e não na adaptação que eu senti muita falta que é, seguramente, um dos meus 10 momentos favoritos em qualquer hq: 


[V is talking to the statue of Madame Justice atop the Old Bailey]

V: Hello, dear lady. A lovely evening, is it not? Forgive me for intruding, perhaps you were intending to take a stroll, perhaps you were merely enjoying the view. No matter, I thought that it was time we had a little chat, you and I. Ahh... I was forgetting that we are not properly introduced. I do not have a name. You can call me V. Madame Justice, this is V. V, this is Madame Justice. Hello, Madame Justice.

V: [as Madame Justice] Good evening, V.

V: There, now we know each other. Actually, I've been a fan of yours for quite some time. Oh, I know what you're thinking... "The poor boy has a crush on me... an adolescent infatuation". I beg your pardon, Madame. It isn't like that at all. I've long admired you... Albeit only from a distance. I used to stare at you from the streets below when I was a child. I'd say to my father "Who is that lady?" And he'd say "That's Madam Justice". And I'd say "Isn't she pretty?". Please don't think it was merely physical, I know you're not that sort of girl. No, I loved you as a person, as an ideal. That was a long time ago, I'm afraid there's someone else now...

"Madame Justice": What? V! For shame! You have betrayed me for some harlot, some vain and pouting hussy with painted lips and a knowing smile!

V: I, Madame? I beg to differ! It was your infidelity that drove me to her arms! Ah-ha! That surprised you, didn't it! You thought I didn't know about your little fling, but I do! I know everything! Frankly, I wasn't surprised when I found out. You always did have an eye for a man in uniform.

"Madame Justice": Uniform? Why, I'm sure I don't know what you're talking about. It was always you, V. You were the only one...

V: Liar! Slut! Whore! Deny that you let him have his way with you, him with his armbands and jackboots! Well? Cat got your tongue? I thought as much. Very well. So you stand revealed at last, you are no longer my Justice. You are his Justice now, you have bedded another. Well, two can play at that game!

"Madame Justice": Sob! Choke! Wh-Who is she, V? What is her name?

V: Her name is Anarchy. And she has taught me more as a Mistress than you ever did! She has taught me that Justice is meaningless without Freedom. She is honest, she makes no promises and breaks none. Unlike you, Jezebel. I used to wonder why you could never look me in the eye. Now I know. So goodbye, dear Lady. I would be saddened by our parting, even now, save that you are no longer the woman that I once loved. Here is a final gift. I leave it at your feet.

[V leaves a small heart-shaped chocolate box at the statue's feet. As V walks away, the box explodes, destroying the Old Bailey and the statue]

V: The flames of Freedom, how lovely, how just. Ahh, my precious Anarchy... "O beauty, 'til now I never knew thee".

Épico, pra dizer o mínimo. De resto, ambos, filme e HQs, são fantásticos, com seus méritos e falhas individuais. 

Ao preferirem fazer uma adaptação menos presa aos quadrinhos (inclusive, no poster do filme constava a frase - "livremente adaptado dos quadrinhos de Alan Moore"), os Wachowski acertaram a mão, criando um filme de profunda relevância política (taí o pessoal do Anonymous e do movimento Occupy que não me deixam mentir). Dessa forma, funciona em seu incisivo ataque aos governos, ao poder totalitário e repressor das liberdades individuais e ao papel da mídia e da religião como mantenedor desse status quo. Mas, não nos esqueçamos, também funciona como entretenimento (afinal, é um puta filme de ação), contando a história fascinante de um mundo em mudanças e dos personagens geradores dessas mudanças, V e Evey. 





Então, é isso, senhores. Curtam o 5 de novembro, e não se esqueçam do que a data significa.

Curtam a Anarquia, crianças. ^^

FIGHT THE POWER!!!! o/