quinta-feira, 16 de julho de 2020

Conversando com o Starman #5

Um pouquinho mais tarde do que de costume, mas aqui estamos, senhores.
E a música do dia é o primeiro clássico Bowieano: Andy Warhol





Contexto: Pintor, filmmaker, trend setter. Um influenciador de fato. E mais um dos heróis pessoais de David Bowie. Andy Warhol apareceu no radar do cantor após este ter contato, via um colaborador, com o clássico disco "Velvet Underground & Nico". Daí pra diante, é história. 

É fácil ver como as principais máximas "Warholnianas" ("No futuro todo mundo vai ser famoso por 15 minutos" e "Todos deveriam ser uma obra de arte ou vestir uma", esta, uma apropriação de Oscar Wilde) iriam influenciá-lo num futuro nem tão distante assim: lembremos que este álbum antecede em um ano o lançamento de seu trabalho mais famoso, "Ziggy Stardust and the spiders of mars". Toda a filosofia de art-pop, as intersecções entre arte e consumismo e esse caráter de não-permanência como estilo o influenciariam não apenas na concepção da mais famosa dentre todas as suas "personas", mas por toda a sua carreira. 
Um dos episódios mais lendários da mitologia "Bowieana" se deu quando finalmente o primeiro encontro entre ele e Andy aconteceu: Depois de apresentados, o músico botou o disco com a faixa para tocar. Relatos contam que, sem esboçar nenhuma reação, o líder da Factory simplesmente saiu da sala. Posteriormente, um interesse do nova-iorquino nos sapatos que o britânico utilizava no dia em questão acabou reaproximando-os, ainda que David, em entrevistas, tenha sempre tido o cuidado de deixar claro que eles nunca foram exatamente "amigos". Décadas depois, ele teria a honra de interpretar Warhol em pessoa na cine-biografia "Basquiat" (de 1996). 

Polaroid tirada por Warhol em seu reencontro com Bowie. De fato, os sapatos dele são lindos. 

Sobre a música: Faixa 4 de "Hunky Dory", quarto trabalho de estúdio do artista que protagoniza esta série. Teve reviews muito bons na época de seu lançamento, mas não teve vendas tão avassaladoras. Claro que, um ano depois, esse cenário mudaria com a chegada na terra do homem das estrelas e sua crônica de vida e morte. "Ziggy ..." e seu sucesso comercial fez com que os fãs de música decidissem conhecer os LPs prévios do músico e, com isso, "Hunky Dory" acabou tendo seu merecido reconhecimento. É preciso dizer que, apesar de eu não dúvidas das melhores intenções que Bowie tinha quando criou a faixa e sua idéia de "homenagem irônica", eu consigo entender perfeitamente pq o homenageado não se sentiu tão honrado. "Dress my friend just up for show"? "He'll think about paint and he'll think about glue?". Yeah. Mas a idéia era bem essa: falar de arte, comercialismo, a perenidade das coisas e.... vocês sabem. Fama. Aquilo que "makes a man, take things over" como ele viria a dizer num futuro próximo. 

Bowie como Warhol para "Basquiat"
Como vai ser o seu dia: Okay, ninguém vai negar a importância de Andy Warhol. Sua pintura da lata de sopa Campbell é histórica (tanto que eu tenho uma latinha aqui guardada como decoração, lá na cozinha. Em tópico relacionado: a sopa é muito gostosa. Nada lendário, mas vale a menção). Sua art-pop e as discussões sobre a intersecção entre comercialismo e produção artística, idem. E afinal, a The Factory lançou pro mundo vários e vários e VÁRIOS nomes, não coincidentemente conhecidos como os "Warhol superstars". Mas, e sempre há um mas..... Pensem que a Factory era um ponto focal da arte nova iorquina da sua época. Onde qualquer proscrito minimamente talentoso se jogava tentando canalizar um pouco da luz local. Então, imaginem que para cada Edie Sedgwick, Paul Morrissey e Gerard Malanga, devem ter havido uns 3 ou 4 sujeitos que só não conseguiram "chegar lá". Para cada Nico descoberta no estúdio, chuto, por cima, que deve ter havido umas 5 ou 6 Valerie Solanas. E isso transcende Warhol: Qualquer entourage que se forma ao redor de algum superstar vai acabar trazendo junto sua cota de parasitas sociais. Aquele bando de rêmoras que tentam ficar com as migalhas dos "alphas" do bando. 
Portanto, chegando ao ponto que lhes tocam, meus ímpios: cuidado com as "Falsianes". 
Meu gibi favorito do Homem-Aranha fala exatamente sobre isso: Os vilões dos mutantes, são mutantes. Os vilões do Hulk, são outras criaturas afetadas pela radiação gama. Os vilões do Homem-Aranha, por sua vez, na maioria, tem também suas imagens públicas inspiradas em animais, tal qual o herói. Lagartos, octopus, Tigres, ratos. A diferença é que estes são apenas impostores, tentando alcançar a mesma "fonte original" que a tocada pelo super-herói. E na incapacidade disto, eles tentam destruí-lo. É aquela máxima encontrada em adesivos em carros populares de que "Se tua estrela não brilha.....etc., etc., etc..".
Novamente: cuidado com as pessoas perto. Saiba distinguir quem, de fato, se importa contigo e quem apenas vê em ti um degrau para ser usado para algum fim.
Uma segunda leitura, menos "negativa"? Fama passa. Tudo, afinal, passa. Exceto pra quem se reinventa. E eu sei que fazê-lo no nosso contexto pós-modernista, eternamente num estado de realidade líquida, pra citar Bauman, é difícil. Mas ninguém disse que ia ser fácil, crianças. 
Do contrário? Aproveita seus quinze minutos sob os holofotes, mas lembre-se que eles estão indo embora. Um segundo por vez. 

Frase do dia: "I'd like to be a gallery and put you all inside my show"

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