segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Weekend Report: sobre amores antigos, homens raivosos e um pouco de ambos.....

Ia ser mais um "nada a ver com nada, mas..."......mas..... não sei, não gosto de usar tanto esse título pq, afinal, ele não diz nada. Não que os textos que eu venho fazendo diariamente (salvo finais de semana) desde semana passada sejam o material mais pretensioso que já compus, mas ainda assim.... 
Bom, mais um textinho diário sobre as popzeiras consumidas no final de semana passado.
Hoje especificamente falo de dois seriados

O primeiro é Crazy ex-girlfriend



De tempos em tempos, gosto pra cacete de pegar essas listas de "melhores qualquer coisa do ano" e dar pelo menos uma chance pros elencados, principalmente se for um material mais underground, menos mainstream. As vezes, mesmo pra esses, eu dou uma olhada de vez em quando. As vezes, compensa (Outlander merece o fandom que tem, mesmo com uma escorregada ou outra, aqui e ali). Outras, não (tem que acabar a série de super herói. Sério). Numa dessas, crazy ex-girlfriend caiu no meu radar. 
Sério, eu e Stella devoramos 2 temporadas e meia das 4 existentes desse show em coisa de duas semanas. Só ontem, vimos uns 2/3 da season 3. É bom nesse nível.
E querem saber? É um seriado de relacionamentos que tem cenas musicais.

Agora, vcs sabem o quanto odeio coisas sobre relacionamentos, certo?
E nada mata meu interesse em qualquer coisa mais rápido do que a palavra "musical" na mesma frase. 

e mesmo assim? Acho que facilmente colocaria a série criada e protagonizada por Rachel Bloom como uma das melhores coisas que já vi na vida, lá no topo, com meus shows favoritos tipo the wire, the prisoner, Twilight Zone, Hannibal e outros...  Estou sendo demasiadamente passional? Talvez. Mas que roteiro incrível, que elenco foda e pqp, eu adoro como os roteiristas do programa subvertem nossas expectativas direto. 
A série narra o dia a dia de Rebecca Bunch, uma advogada nova iorquina que está há beira de uma crise nervosa, até o dia em que encontra Josh Chan,  um amor de adolescência, que, por sua vez, está apenas de passagem pela metrópole norte americana, tendo ele se mudado pra West Covina, uma cidadezinha do interior da Califórnia. Tipo sair de SP pra ir morar em, sei lá, Praia Grande. Após o encontro provocar certas borboletas no estômago de Rebecca, ela não hesita e decide se mudar pra lá, tentando retomar o relacionamento com Josh, o ex de décadas atrás acima citado. 
Uma vez lá e já com uma sidekick (Paula), a moça cria plano atrás de plano pra tentar ganhar o coração do moço, que, por sua vez, tá com relacionamento sério com Valência, uma professora de Yoga que é o estereótipo da beleza inalcançável (vejam bem, eu nem acho, sou muito mais team Bunch, mas é o que a série quer que a gente veja então...)
Como eu disse, é fascinante ver o roteiro se desenrolando. Era pra ser uma sitcom romantiquinha com musicais, mas vai virando algo mais e mais sério, mais e mais dark. Nunca deixa de ser uma comédia, mas vejam bem: Irmãos Marx faziam humor. John Waters tb. Vcs não diriam ser exatamente a mesma coisa, certo? Exato. 
Lembram que eu vivo dizendo que não importa a série, o filme, o gibi, etc, a obra de arte em questão, qualquer que seja o formato dela, querer ser política se ela falhar como arte? Então. Não é de hoje que eu tenho notado que a msg de inclusão tá virando uma commodity, por mais que bem vinda, pra esconder arte ruim. Sense 8 era mega inclusiva, mas tinha um fiapo de roteiro que devia dar dois parágrafos de uma sulfite. As séries da Marvel do Netflix tb, porcas pra caramba. Lembram da Lenda de Korra? Sim, certo? Por causa das boas tramas, dos bons roteiros e personagens tridimensionais ou pq no final um casal lésbico virou canon? Pois é. Eu lembro de um ep. de Riverdale, que já é uma série com roteiros ruins apesar de ser visualmente linda, onde eles tentavam passar uma mensagem de body-positivity mas o negócio ficava proselitista num nível que só faltava o He-Man aparecendo no final pra dizer "e no ep. de hoje aprendemos a não fazer body-shaming com o coleguinha".
Então, de volta a "Crazy Ex-Girlfiend": o que começa como uma comédia romântica com personagens "quirky" vira, devagarzinho, sutilmente, uma história sobre saúde mental e a falta dela. Sabe quando vc vê a protagonista média de rom-com, tipo uma Julia Roberts nos anos 90, e pensa "caralho, que plano bizarro pra conquistar o cara. Essa mina é louca".
Então, Rebecca e Paula SÃO loucas. Só que isso passa a deixar de ser engraçado com o tempo e a série começa a fazer as perguntas que as comédias românticas das décadas passadas apenas ignoram em prol da história andar. No ponto em que me encontro da trama, eu REALMENTE temi pela integridade física de certos personagens. É, é sério nesse nível. 
Além disso, elementos que pareciam plot holes da season 1 vão sendo retomados e resolvidos nas duas temporadas seguintes. A vida dos personagens anda. O status quo muda, mesmo quando Rebecca não está sob o holofote, e isso pq cada personagem é um universo em si, como é na vida real. Relacionamentos começam, relacionamentos acabam, amigos se afastam, outros se juntam. 
Num universo cheio de séries que começam e terminam no mesmo exato ponto, tipo Friends, em que quase nada nunca muda (exceto um casamento aqui ou uma gravidez acolá quando a audiência precisa de um sacode), a dinâmica entre os personagens da série soa incrivelmente refrescante. 
E as músicas, pqp. Elas são engraçadas, quebram a quarta parede e não se levam a sério em momento nenhum, quase como se reconhecessem o ridículo que é a história parar pra um bando de gente começar a cantar e dançar, do nada, principalmente num programa que abraça o senso de realidade. 
Serião, pra vcs que curtem essas comédias tipo Bojack Horseman, engraçadas mas "too real", te surpreendendo com um cruzado de direita emocional de tempos em tempos, Crazy Ex Girflriend é obrigatória. Espero que vcs se encantem com ela tanto quanto eu.


Moving on: 



Vi o primeiro episódio de "The Shield"
Rapaz. 
Serião again: RA-PAZ. 
Faz um tempo desde que vi a primeira temporada e já não lembrava de muita coisa. Falemos de porradas emocionais não? 
A série conta a história de um grupo de policiais da fictícia cidade de Farmington em Los Angeles. Esse "strike team", liderado por Vic Mackey (Michael Chiklis), é a divisão do departamento de polícia local lidando com violência de gangues e tráfico de drogas. Tipo, a "tropa de elite" deles, que é chamada quando as coisas ficam realmente feias. E considerando que estamos falando de uma cidadezinha com uma periferia bem complicada, as coisas ficam realmente, REALMENTE feias com certa frequência. 
Já no primeiro ep., o tema principal é trafico de crianças pra abuso sexual. 

Pois é. 

Mesmo num mundo em que já existiam shows como "NYPD Blue" e "Homicide", a série engenhada por Shawn Ryan, que tem no currículo trabalhos como "The Unit", "Lie to me" e "Chicago code", se destaca por mostrar os policiais em tons de cinza. No primeiro ep...

e só pra constar, NÃO EXISTE SPOILER DE PRIMEIRO EP. Até pq, como diria uma youtuber da qual eu gosto, "primeiro ep. é premissa", então....

...vemos Vic e seu grupo redistribuindo dinheiro sujo e drogas confiscadas entre a comunidade criminosa local, nos dando idéia da rede de comunicação que esses policiais criaram, não muito diferente do que Batman queria fazer no arco "War Games" ou da network criada por Varys em Game of Thrones. O único jeito de controlar a criminalidade é trabalhando com ela por debaixo dos panos. Pra dificultar a vida de Mackey, temos o capitão David Aceveda, recentemente empossado no cargo na delegacia de Farmington e tentando mostrar serviço e manter Vic e seu crew na coleira. Os outros dois "núcleos" são protagonizados pelos agentes Dutch e Claudette e o terceiro, com crimes "de rua" mais cotidianos, estrelados por alguns policiais novatos. O ep. piloto já vem com os dois pés no peito, mostrando o caso de Dutch e Claudette envolvendo uma criança desaparecida e usando esse crime pra mostrar as diferenças e semelhanças entre os personagens dessa história. 

Até aí, tudo bem. 
A porca começa a torcer o rabo quando o final do ep. vem e manda tudo pro cacete. Até aí, vimos Vic subornar traficantes e prostitutas em troca de informações, guardar grana coletada de tráfico e espancar um suspeito de pedofilia e, vejam bem, novamente, até aí tudo bem. A articulação com os criminosos locais é coisa que imagino que role direto entre forças da lei envolvida em comunidades mais pobres. E com relação ao pedófilo...na boa, defendo direitos humanos mas ninguém vai chorar por um estuprador de crianças que apareceu de olho roxo e sem uns dentes. 
Só que (e de novo, NÃO EXISTE SPOILER DE PRIMEIRO EP.): no decorrer do ep. vemos que Aceveda botou um agente infiltrado no grupo de elite.
E o final do ep. mostra o rapaz em sua primeira grande missão com o time, invadindo o prédio de um traficante de médio porte local. E aí, Vic pega a arma do criminoso e, tendo apenas seus 4 colegas de equipe como testemunhas, senta um tirombaço na testa do x-9. Simples assim.
Um policial honesto foi executado na nossa frente, à sangue frio. É aí que vc vê que tá diante de algo especial. 
E aí não tem mais volta. Tal qual o agente executado, tamos ali tb, "perdendo a virgindade" nesse mundo. A ultima cena mostra o líder do strike team olhando pro corpo de Terry, o policial assassinado e vemos a cena da perspectiva do morto. O ep. termina com Mackey olhando pra câmera, decepcionado, acenando a cabeça negativamente. Lamentando a perda de uma vida, tipo aquilo de "não se faz bolo sem alguns ovos quebrados". 
Mas também, metaforicamente, funciona como se fosse a NOSSA iniciação dentro daquele universo. E o aceno é pq, de alguma forma, Vic sabe que somos e seremos cúmplices dele. Se seguirmos adiante, é por nossa conta e risco. Sabemos do que ele fez, mas, na nossa posição confortável de espectadores, seguiremos testemunha deste e de outros crimes cometidos por aqueles policiais "em nome do bem maior."




O sangue tb está em nossas mãos. "Bem vindo ao time, novatos"


Por fim, ainda sobre historias musicais e com sua cota de armas de fogo sendo utilizadas, os meninos do jogabilidade finalmente, depois de DOIS FUCKING ANOS, lançaram a segunda parte de seu podcast dissecando Hamilton, a obra prima de Lin Manuel Miranda e provavelmente o musical da Broadway mais famoso dos últimos anos. Oito horas de programa (links pra parte um e dois), mas que vão num pulo. O grupo analisa musica por musica, dando contexto, analisando liricamente e dando uns detalhes interessantíssimos pros fãs da biografia do primeiro secretário do tesouro norte americano. É fascinante ouvir aquele grupo discutindo, rindo e se emocionando com as mesmas coisas que eu ao ouvir ou ver a peça. E esse intervalo de dois anos entre os dois episódios tb não deixa de ser algo curioso, pra podermos ver como a relação deles com o musical mudou depois desse tempo, como algumas opiniões mudaram enquanto outras permaneceram as mesmas. Vale a ouvida. 

No mais, tiveram alguns artigos lidos que quero compartilhar com vcs. Seguem os links.





É isso, crianças. Volto amanhã. See ya.

Nenhum comentário: