terça-feira, 4 de agosto de 2020

Conversando com o Starman #16

Terça-feira. Bem vindos de volta, sobreviventes de 2020. 
Mais um dia, mais uma mensagem do grande homem das estrelas que nos espera, universo adentro. 
A música de hoje, sem mais rodeios, é "IF YOU CAN SEE ME".



Contexto: De volta para o "The Next Day", seu vigésimo quarto lançamento de estúdio, obra da qual já falei aqui antes. Podemos pular essa parte.

Sobre a música: "Sonoramente falando", "if you can see me" não é o momento mais agradável do disco, o que não é, de forma alguma, uma crítica. A idéia é causar, de fato, certo incômodo no ouvinte, seja pela parede sonora da instrumentação, seja pelas vozes que ouvimos, a de Bowie e a dele próprio, distorcida, harmonizando. O jogo de significados já começa no título. "Se você consegue me ver" é uma via de mão dupla. Você olha para o abismo e, como consequência, ele te olha em resposta. 
Não é dito de forma literal, mas o "eu lírico" da faixa é, ao mesmo tempo Bowie e uma figura de liderança, um governante ou mesmo um deus, olhando seus fiéis de seu trono. Essa relação é, simultaneamente, de gratidão mas certa distância raivosa. Toda relação entre uma deidade e seus fiéis é de simbiose (alguns diriam parasitismo, mas deixo que os senhores decidam). Você entrega sua fé para a tal entidade e ela, em troca, te dá algo. A moeda corrente é a fé, a adoração, seja ela por meio de sacrifícios, seja apenas por meio de orações ou pura crença. 
Na época, já um senhor de 66 anos, David tinha dificuldades em se ver acessando o público mais jovem, os fãs de Lady Gaga, Taylor Swift ou qualquer outra artista pop que reinava, reina, ou venha a reinar nas listas de mais ouvidos do mainstream. O jeito, portanto, é mais uma vez se reinventar: 

"I could wear your new blue shoes 
  I should wear your old red dress"

Fora com os "red shoes to dance the blues" que lhe serviram tão bem em outras épocas. De volta ao campo de batalha. 

"And walk to the crossroad, so take this knife
  And meet me across the river"
"Just chutes and ladders"

Uma descrição perfeita da vida de quem se predispõe a viver da arte, a tirar seu sustento dessas águas turbulentas. Uma subida lenta, via escadas, e uma descida rápida e tensa, de paraquedas. Altos e baixos. Surfar sobre o inconsciente coletivo e entender como o zeitgeist funciona  é uma arte que poucos artistas dominaram.

"American anna fantasticalsation"

Aqui a gente tem dois jogos de palavras interessantes. Não vi nenhuma versão definitiva ou explicação vinda da fonte original em lugar nenhum então, só nos resta especular. "American anna" soa como "Americana", palavra que, em inglês, se refere a coisas tipicamente estadunidenses. Não apenas no sentido geográfico, mas todas as coisas que remetem ao folclore, cultura e que falam com o que é mais estereotipicamente americano: Norman Rockwell, a torta de maçã, Elvis, as camisetas "T-Shirt", o jazz, as histórias em quadrinhos de super-heróis. "Fantasticalsation" parece agregar "Fantastical" (de origem fantástica) e "causation" (causa, motivo, razão ou circunstância), paradoxalmente unindo o que é mítico e super-humano com aquilo que pode ser racionalmente explicado de forma cartesiana. 
Acessar o "Americano" - ainda mais sendo o cantor que protagoniza esta seção, um homem inglês, ainda que vivendo em solo norte-americano há décadas  - no sentido de "mainstream", de "universal" e orbitar entre o fantástico e o "real" não é um trabalho dos mais fáceis, e poucos sabem se equilibrar em cima dessa navalha. 

"Children swarm like thousands of bugs 
Towards the light 
The beacons above the hill 
The stars to the West, the South, the North And to the East"

O deus criador fala de seus fiéis, não com gratidão, mas como se estes fossem uma peste, numa relação de amor e ódio. O líder que vive para agradar seus seguidores, mas ciente que essa admiração pode ser converter em desafeto em dois tempos, quer seja por que tentou demais, seja por tentar de menos. E os inimigos espreitam, querendo uma fatia do bolo, ao norte, sul, leste e oeste. 
Para o artista, a competição não é mais local. Com plataformas como youtube e spotify cada vez mais onipresentes, sua voz disputa com a de pessoas no planeta inteiro. 

"Now you can say I've got a gift of sorts 
A fear of rear windows and swinging doors 
My love of violence and tenants' sighs"

De fato, Bowie, o artista e o eu-lírico da faixa que analisamos hoje, pode dizer, sem medo de arrogância, que ele possui "certo conjunto de talentos". Mas é curioso ver como ele os coloca lado-a-lado com o "medo de janelas traseiras e portas giratórias". O medo de olhar perpetuamente para trás e ficar girando em torno dos mesmos temas é, simultaneamente, um terror constante para ele - e para qualquer artista que se pretenda relevante e não queira apenas viver recriado a mesma obra de novo e de novo - e uma das fontes de seu poder. Citando o texto de ontem, "evolução ou morte". 

"I have seen these bairns wave their fists at God 
Swear to destroy the beast, stamping the ground 
In their excitement for tomorrow"

Ser um artista relevante envolve, obviamente, ser um iconoclasta: você pode ter seus ídolos, mas você precisa ter ciência, se quiser de fato poder tomar lugar entre eles, que eles são só homens e mulheres e nada além disso. Saber dosar o fato de que você, como criador, está andando em caminhos já trilhados e que está "nos ombros de gigantes", ao mesmo tempo em que quer fazer sua voz ser ouvida em meio a destes mesmos ídolos. O que ainda é mais aterrador quando você quer soar novo mas já é visto, merecidamente no caso de Bowie, como um destes "deuses entre mortais". Mesmo considerando o aspecto mercurial da sua obra, mudança constante é algo difícil e se fazer novo, já sendo um artista com certa história, mais árduo ainda, principalmente diante do escrutínio dos jovens leões, hostis e famintos, querendo a posição de alpha, sua posição na mesa e seus nomes no livro de história. 

"I will take your lands and all that lays beneath
The dust of cold flowers, drizzle of dark ashes
I will slaughter your kind, descend from belief
I am the spirit of greed, the lord of theft
Burn all your books and the problems they make
If you can see me I can see you
If you can see me"

Diante deste cenário, o artista - que aqui soa perigosamente como o Thin White Duke, em outro aceno a mais um dos temas constantes da obra tardia de Bowie: a de que ele precisa acessar lugares perigosos e destrutivos da própria mente para achar o tipo de fogo de que precisa para se conectar com as multidões. - promete apenas "terra arrasada". Ele é um destruidor, um deus furioso, um ladrão - como todo artista, aliás, que está sempre bebendo de outras fontes - um "espírito cobiçoso", que vai tirar nossa atenção dos nossos problemas mundanos. 
A frase título, que antes soava com algum afeto, agora vem como uma ameaça e uma promessa.
"Se você me vê, eu te vejo de volta". Nós abrimos essa porta e agora, não tem volta.  
Gritamos ao abismo e agora, ele vai se fazer ouvir de volta porque ele sabe que, por mais aterradora que seja sua voz, é o que queríamos. E o que vamos querer, de novo e de novo. 
Então "pegue seus sapatos azuis, seu vestido vermelho". E se prepare para dançar. 

Como vai ser o seu dia: Ele disse. Ele te vê e você a ele de volta. Sim, é sobre arte e sobre se fazer relevante, mas também sobre nossa relação com a arte que existe, sejamos nós mesmos outros criadores ou apenas na posição de "consumidores fiéis". Então, só tira o dia para "dançar o blues". 
Todos os seus medos vão estar te esperando quando você voltar. 

Frase do dia: "From nowhere to nothing and neither way back". 
"Do nada para o lugar nenhum e sem caminho de volta". 

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